(Escrito em 04/10/2009. Oferecimento do bloco de notas.)
Se tem algo com que eu ainda não me acostumei nessa cidade é a rispidez de algumas senhoras, atendentes dos charmosos ou nem tão charmosos cafés de Coimbra. Principalmente quando elas frustram meu ideal de provar os famosos pasteizinhos de Santa Clara.
- Tens?
- Já terminaram.
- E pastel de nata?
- Não!
Ela virou-se para o outro lado do balcão para limpar os restos de cerveja que algum garçon distraído tinha deixado cair. Tudo bem. Não seria o tom de um “não” que que estragaria o meu fim de tarde montado para parecer uma daquelas turistas alegres que sobem e descem as ladeiras de Coimbra com suas câmeras de última geração.
Eu não tinha uma câmera de última geração, mas tinha algumas moedas no bolso. Cêntimos, como falam aqui. E a minha designação de consumidora em potencial. Ninguém poderia me impedir de sentar num gracioso estabelecimento com azulejos na fachada e provar um quitute da culinária local.
Quer dizer, a tal atendente poderia impedir. Cheguei tarde. As turistas com suas câmeras de última geração já tinham levado os últimos pastéis.
- Ok. Um pastel de feijão e um café, por favor.
Ó vida. Sentei-me, ajeitando as pernas para que não batessem no pé da mesa redonda – pequena até mesmo para mim e meu pouco mais de metro e meio – e aguardei a nem tão simpática senhora servir-me meu deleite de falsa turista.
Nada mal para uma opção periférica do menú de doces portugueses. O gostinho da amêndua combinou com o café e com o tipo de pinceladas dos quadros das paredes. Pinceladas delicadas, apesar de parecerem estar naquele estilo de quadro que se compra quando não se tem dinheiro para uma obra assinada mas não se quer baixar o nível comprando a arte dos posteres de golfinhos.
É um doce de qualquer coisa quase chique. “Quase”. O quase é culpa da Santa Clara, a obra de arte assinada. Mas o pastel de feijão também não chega a ser um quadro de golfinhos.
Os pastéis de fama devem ter terminado porque o ventríloco da cidade percebeu que eu também era um “quase”. Quase turista, mas não turista. Um dia eu terei dinheiro, pele laranja e uma câmera de última geração. Nesse dia eu provarei o pastel de Santa Clara. Até lá…
- Mais um pastel de feijão, por favor!
…
Atualmente eu posso dizer com toda a propriedade que já provei o pastel de Santa Clara (também conhecido como pastel de natas, de Belém, entre outros nomes e com algumas variações na receita). Também posso dizer que o pastel de feijão não lhe deve nada. Levando em conta a pequena desvantagem do pastel de feijão por causa do maldito nome de batismo, um não é melhor do que outro, na minha opinião. São apenas diferentes, apenas gostosos. A questão fundamental está nos quadros e nos azulejos da fachada do estabelecimento em que os comes. Ah, e na latitude, obviamente.
Infelizmente continuo sem ter dinheiro e nem câmera de última geração, e felizmente continuo com a pele num tom diferente do laranja.
Estás servido?

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, amei! Deu fome!
eu nunca comi nem o de feijao, nem o de belém. Agora me pergunte se tem algum produto do pingo doce que eu nao tenha comido hehehe